quarta-feira, 18 de agosto de 2010

DECLARAÇÃO DE AMOR

DECLARAÇÃO DE AMOR

Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho



mas havia um grande berreiro, um enorme burburinho


e, pensado bem, o berçário não era o melhor lugar.






Você de fraldas, uma graça, e eu pelado lado a lado,


cada um recém-chegado você em saber ouvir, eu sem saber


falar.






Tentei de novo, lembro bem, na escola.






Um PS no bilhete pedindo cola interceptado pela


professora como um gavião.






Fui parar na sala da diretora e depois na rua


enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua.






A vida é curta, longa é a paixão.


Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:


"Eu te adoro, te venero, na tua frente fico mudo"


E você não disse nada. E você não disse nada.






Só mais tarde, de ressaca, atinei.


Cheio de amor e Cuba, me enganei e disse tudo para uma


almofada.






Gravei, em vinte árvores, quarenta corações.


O teu nome, o meu, flechas e palpitações:






No mal-me-quer, bem-me-quer, dizimei jardins.






Resultado: sou persona pouco grata corrido a gritos de


"Mata! Mata!" por conservacionistas, ecólogos e afins.






Recorri, em desespero, ao gesto obsoleto:






"Se não me segurarem faço um soneto"


E não é que fiz, e até com boas rimas?


Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.


Continuo inédito e por teu amor sofrendo


Mas fui premiado num concurso em Minas.






Comecei a escrever com pincel e piche num muro branco, o


asseio que se lixe, todo o meu amor para a tua ciência.






Fui preso, aos socos, e fichado.






Dias e mais dias interrogado: era PC


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