quarta-feira, 18 de agosto de 2010

ARMÁRIO

ARMÁRIO

Eu queria, senhora, ser o seu armário



e guardar os seus tesouros como um corsário


Que coisa louca: ser seu guarda-roupa!


Alguma coisa sólida circunspecta


e pesada nessa sua vida tão estabanada.


Um amigo de lei (de que madeira eu não sei)


Um sentinela do seu leito com todo o respeito.


Ah, ter gavetinhas para suas argolinhas


Ter um vão para seu camisolão e sentir o seu cheiro, senhora, o dia inteiro


Meus nichos como bichos engoliriam suas meias-calças,


seus soutiens sem alças, e tirariam


nacos dos seus casacos,


E no meu chão,como trufas, as suas pantufas...


Seus echarpes, seus jeans, seus longos e afins


Seus trastes e contrastes.


Aquele vestido com asa e aquele de andar em casa.


Um turbante antigo. Um pulôver amigo. Bonecas de pano.


Um brinco cigano.Um chapéu de aba larga.


Um isqueiro sem carga.Suéteres de lã e um estranho astracã.


Ah, vê-la se vendo no meu espelho, correndo.


Puxando, sem dores, os meus puxadores.


Mexendo com o meu interior à procura de um pregador.


Desarrumando meu ser por um prêt-à-porter...


Ser o seu segredo,senhora, e o seu medo.


E sufocar com agravantes todos os seus amantes.






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